Imóveis

O impacto da licença paternidade na vida do trabalhador

O impacto da licença paternidade na vida do trabalhador

A licença paternidade é um direito que transforma não apenas a rotina doméstica, mas toda a trajetória profissional e afetiva de um trabalhador. No Brasil, esse benefício ganhou um novo contorno com a Lei 13.257/2016, que ampliou o prazo de afastamento para pais que trabalham em empresas participantes do programa Empresa Cidadã. Muito além de dias livres do trabalho, trata-se de um período que redefine vínculos, redistribui responsabilidades e, em muitos casos, muda para sempre a relação de um homem com sua carreira e sua família. O debate em torno desse direito cresceu nos últimos anos, e entender seus efeitos reais — tanto para o trabalhador quanto para as organizações — é o passo necessário para aproveitar ao máximo o que ele oferece.

O que diz a lei sobre a licença paternidade no Brasil

O Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) garante ao pai trabalhador cinco dias de afastamento remunerado após o nascimento do filho. Esse é o prazo mínimo previsto para todos os vínculos formais de emprego no país. O salário continua sendo pago normalmente pelo empregador durante esse período, sem qualquer desconto ou prejuízo ao trabalhador.

A grande mudança veio com a Lei 13.257/2016, conhecida como Marco Legal da Primeira Infância. Empresas que aderiram ao programa Empresa Cidadã passaram a poder oferecer 20 dias adicionais de licença, totalizando 25 dias corridos de afastamento. Esse benefício, porém, não é automático: depende da adesão voluntária da empresa ao programa e do requerimento formal do trabalhador dentro do prazo estabelecido.

Para adoção, a legislação também prevê licença paternidade. O prazo segue a mesma lógica da licença por nascimento biológico, garantindo ao pai adotante os mesmos direitos. O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o Ministério do Trabalho e Emprego são os órgãos responsáveis por orientar empregadores e trabalhadores sobre as regras de aplicação desse benefício.

Um ponto frequentemente ignorado é a necessidade de registrar a certidão de nascimento e comunicar o empregador dentro do prazo correto. Perder esse prazo pode significar perder o direito à extensão dos dias de afastamento. O trabalhador deve estar atento às exigências documentais da sua empresa para não abrir mão de um direito legalmente garantido.

Como o afastamento repercute na carreira e na produtividade

Um dos maiores receios dos trabalhadores ao exercer a licença paternidade é o impacto na carreira. Muitos homens temem ser vistos como menos comprometidos ou perder oportunidades de promoção ao se afastar, ainda que brevemente. Esse medo, embora compreensível, raramente se confirma quando a empresa tem uma cultura organizacional saudável.

Pesquisas na área de gestão de pessoas apontam que trabalhadores que tiram a licença paternidade tendem a retornar ao trabalho com maior motivação e senso de responsabilidade. O período de afastamento funciona como uma espécie de recalibração emocional: o pai que participou ativamente dos primeiros dias do filho volta ao trabalho com clareza sobre suas prioridades e, em geral, com mais foco.

Por outro lado, quando o trabalhador não exerce esse direito — seja por pressão velada da empresa ou por insegurança pessoal — o custo pode aparecer de forma indireta. Estresse acumulado, conflitos familiares e sensação de culpa são fatores que afetam o desempenho profissional a médio prazo. Ignorar a licença não é sinônimo de dedicação; muitas vezes, é o caminho para um esgotamento silencioso.

Empresas com políticas claras de licença parental — tanto para mães quanto para pais — registram menor rotatividade e maior engajamento das equipes. O trabalhador que sente que sua vida pessoal é respeitada pelo empregador tende a ser mais leal e produtivo. Essa equação beneficia ambos os lados da relação trabalhista.

Vantagens concretas para as empresas que apoiam esse direito

Muitos gestores ainda encaram a licença paternidade como um custo operacional. Essa leitura é equivocada. Empresas que incentivam ativamente o uso desse direito colhem benefícios tangíveis, que vão muito além da conformidade legal.

  • Redução do turnover: trabalhadores que se sentem apoiados em momentos de vida pessoal têm menor propensão a pedir demissão nos meses seguintes.
  • Fortalecimento da marca empregadora: organizações com políticas parentais sólidas atraem talentos com mais facilidade, especialmente entre profissionais da geração millennial e geração Z.
  • Melhora no clima organizacional: quando os pais tiram licença sem constrangimento, a cultura de equilíbrio entre vida pessoal e profissional se fortalece para toda a equipe.
  • Aumento do engajamento: colaboradores que retornam de uma licença bem aproveitada apresentam maior disposição e comprometimento com os resultados da empresa.

Empresas inscritas no programa Empresa Cidadã ainda contam com incentivo fiscal: os dias adicionais de licença paternidade podem ser deduzidos do Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ). Ou seja, oferecer 25 dias de afastamento ao invés de cinco não representa necessariamente um custo líquido maior para o negócio.

O setor de tecnologia foi um dos primeiros a adotar políticas ampliadas de licença parental no Brasil. Empresas como startups e grandes corporações do setor digital usam esse benefício como diferencial competitivo na atração de profissionais qualificados. O mercado está sinalizando: quem não acompanhar essa tendência ficará em desvantagem na disputa por talentos.

O que os números revelam sobre o uso desse benefício

Apesar dos avanços legislativos, o uso efetivo da licença paternidade no Brasil ainda é baixo. Dados de 2023 indicam que apenas cerca de 30% dos pais trabalhadores chegam a exercer plenamente esse direito. O número é expressivo porque revela uma distância grande entre o que a lei garante e o que acontece na prática cotidiana das empresas.

Os motivos para essa baixa adesão são variados. A cultura do provedor ainda é forte em muitas regiões do país, fazendo com que homens sintam que tirar licença é um sinal de fraqueza ou falta de comprometimento profissional. Além disso, em empresas de pequeno porte, a ausência de um trabalhador pode gerar pressão real sobre a equipe, criando um ambiente informal de dissuasão.

Outro fator relevante é o desconhecimento. Muitos trabalhadores, especialmente em setores com menor formalização, simplesmente não sabem que têm direito à extensão da licença pelo programa Empresa Cidadã. A falta de comunicação interna nas empresas contribui para que o benefício fique no papel.

O Ministério do Trabalho e Emprego tem investido em campanhas de conscientização para ampliar o conhecimento dos trabalhadores sobre seus direitos parentais. A expectativa é que, com maior informação e mudança cultural gradual, o percentual de pais que exercem a licença aumente de forma consistente nos próximos anos.

Experiências reais: o que muda na vida de quem decide exercer esse direito

Quem passou pelos primeiros dias ao lado do filho recém-nascido sabe que esse tempo não tem equivalente. O vínculo formado nas primeiras semanas de vida de uma criança é único, e o pai que participa ativamente desse período carrega essa experiência de forma permanente. Não se trata de romantismo: a neurociência do desenvolvimento infantil confirma que a presença paterna precoce tem efeitos mensuráveis no desenvolvimento cognitivo e emocional da criança.

Para o trabalhador, a licença paternidade bem vivida costuma gerar uma mudança de perspectiva sobre o trabalho. Muitos relatam que passaram a valorizar mais o tempo com a família, a negociar com mais clareza seus limites profissionais e a buscar ambientes de trabalho que respeitem esse equilíbrio. Essa reorientação de valores, longe de prejudicar a carreira, frequentemente a melhora.

A divisão das tarefas domésticas também muda quando o pai está presente desde o início. Casais que compartilham os cuidados com o recém-nascido desde os primeiros dias tendem a manter uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades ao longo dos meses seguintes. Isso reduz a sobrecarga sobre a mãe e cria um modelo familiar mais saudável para todos os envolvidos.

Trabalhadores que relatam ter aproveitado plenamente a licença paternidade descrevem o período como um dos mais intensos e significativos de suas vidas. A privação de sono é real, a rotina é desafiadora, mas o senso de presença e de participação ativa na chegada de um filho é algo que nenhuma promoção ou projeto profissional consegue substituir. A empresa espera. Esse momento, não.

A redação

Os artigos publicados neste site são produzidos por uma equipe editorial especializada em conteúdo informativo sobre empresas e gestão, sem vínculo com prestadores de serviços ou profissionais do setor. Sobre nós